23 de agosto de 2012


eu já nasci com esse defeito, doutor. isso é coisa que a gente traz de fábrica mesmo, e começa a sentir nem bem começou a viver, ali naquele instantezinho inicial em que abrimos berreiro, divididos entre a dor e o alívio da primeira respiração. e nem duvido ter sido já em dia de estréia que eu percebi o quanto todo resto também não seria lá muito fácil.

pois então, doutor, o caso é esse: eu sofro de sensibilidades. assim, no plural mesmo. e não são poucas as vezes em que delicadezas me machucam a ponto de paralisar. sim, é isso, o senhor ouviu bem: a beleza me dói. como não bastasse toda tristeza que a gente precisa aprender a domar, também aquilo que é muito bonito me comove e machuca de modos que razões nunca alcançam. e por falar em razões, doutor, acredita que nem elas me escapam? dia desses, mesmo, pulei da poesia para a teoria. volta e meia eu insisto nisso de tentar escapulir pela porta das grandes ideias, caçando um modo de domar praticidades. dessa vez foi com o tal do foucault. mas aconteceu tudo de novo: um mundo de sutilezas insuportavelmente bonitas se descortinou à minha frente e doeu tanto, que só o senhor vendo...

tem certeza que isso não tem remédio, doutor?

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