1 de agosto de 2012

E agora me deixe só, inspector. Me custa chamar lembranças. Porque a memória me chega rasgada, em pedaços desencontrados. Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, eu quero a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez. Custa-me ir cumprindo tantas pequenas mortes, essas que apenas nós notamos, na íntima obscuridade de nós. Me deixe, inspector, que eu acabei de morrer um bocadinho.

(A varanda do frangipani, Mia Couto)

4 comentários:

  1. as memórias não deixam a gente remar...

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    1. verdade, débora... de vez em quando o barco pesa, né?!

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  2. Juliana, acabei de ler O último voo do flamingo, também de Mia Couto. Não quero descrever nada, só dizer que ele, com suas palavras e beleza, me impedem de falar, só sorver tamanha poesia e profundidade. A o livro Varanda do Frangipani, ajudado por esse trecho que postou, será uma das minhas próxima viagens. Um abraço.

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    1. dos que li até hoje não sei qual o mais lindo, poeta. não sei mesmo! rs... tenho intercalado as obras dele com outras leituras só pra não ver acabar tudo rápido demais. :) é que me toca tanto a alma!

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