7 de fevereiro de 2017

é assim mesmo: em nós, as partes mais difíceis de emergir se erguem a partir de drásticas desconstruções. surgem de ruínas, cataclismos, verdadeiras erupções, quando a gente derruba mitos e dá uma volta completa ao redor das convicções, tendo a chance de espreitar a imensa fragilidade de nossas certezas. é quando as vivências embaralham nosso campo de visão e descortinam novos ângulos, inaugurando olhares. daí nascem outros de nós, sobrepostos a nós mesmos, em camadas que se articulam, dialogam, atritam, destroçam e recompõem nossa experiência de estar-no-mundo. em minha vida, essa sensação/constatação da impermanência é uma das maiores constantes (e talvez minha mais querida angústia).

25 de outubro de 2016

tem gente que puxa o nosso tapete com tanta doçura, que a gente cai sorrindo. só dói depois.

18 de outubro de 2016

(in)verso de amor
é esse velho constatar
que não deixar-se levar
por completo
também guarda
seus tristes
tortos
méritos

4 de outubro de 2016

hoje o tempo abriu ferida na parte mais mulher de mim.
voltei a sangrar.



29 de julho de 2016

tem muita vida batendo à minha porta ultimamente. e eu, mãos na maçaneta, toda constrangida em não ter posto a casa em ordem pra a visita entrar...

14 de julho de 2016

conhecer(se) é um tecer(se) sem fim: mudo a fundo quem sou quando alcanço outro tanto de mim.

3 de julho de 2016

há um mundo inteiro dentro de nós que escapa às palavras. uma porção de sentidos que a gente não alcança por não saber (ou querer) nomear. é preciso, afinal, comunicar as coisas para torná-las inteligíveis; dar forma ao querer para entender que ele existe. quando quero evitar que as coisas ganhem muita importância, eu calo sobre elas. no fundo no fundo, devo ter muitos desejos camuflados pelo silêncio. suspeito que até bem pouco, você talvez fosse um deles. 

26 de maio de 2016

um tantinho acuada, confesso. é que sempre que um querer desponta, meu medo exibe os dentes.

4 de maio de 2016

ando tecendo estampa nova no bordado da vida com aqueles fiozinhos soltos que eu nunca soube onde amarrar. tá fazendo sentido. tá ficando bonito. 

24 de abril de 2016

Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, o que faço é perto do não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. Como se falando pudéssemos fazer tudo. O que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar, pai. Preciso de aprender a calar-me. Quero muito fugir.

Valter Hugo Mãe | A Desumanização 

10 de janeiro de 2016

eu parei de lutar contra o tempo. 
ando exercendo instantes. 

viviane mosé | pensamento chão

11 de dezembro de 2015

não me interessam encontros dos quais possamos sair ilesos.
quero experiências que revirem minhas certezas do avesso.

4 de dezembro de 2015

sem eu sequer perceber, algo em mim rosnava pro teu bem querer.

2 de dezembro de 2015

um alguém querido certo dia me falou que "se apaixonar é se despertencer". foi quando entendi que o maior medo que sentia era de nunca mais me reaver.

24 de novembro de 2015

falta nomear esse sentir; se é de um haver ou um porvir.
explicar con palabras de este mundo
que partió de mí un barco llevándome

alejandra pizarnik
dentro do frio mora um resto de saudade. dentro de mim também.

21 de outubro de 2015

há coisas que a gente guarda na intenção de nunca mais achar. uma carta, um cheiro, uma saudade, uma lembrança, um lamento, uma vontade. o disco antigo de luiz melodia, a velha colcha azul encardida e, claro, muitas (muitas) fotografias. tem tanta coisa escondida ali no fundo do fundo das minhas escolhas de vida, tantos retalhos de gente confinados nas curvas da minha memória seletiva. uma porção do meu ser que eu guardei assim: tão fundo, alheio, permissão só pra ir. vez ou outra o acaso, piadista, ergue pontes, cava túneis, cria atalhos, lança a corda, senta e ri. e fica ali, o quanto necessário, se divertindo a espiar se eu enforco ou resgato isso que há cá dentro de dentro de dentro de mim. mas há coisas que a gente realmente guarda na intenção de nunca mais achar.

6 de outubro de 2015

meu querer tem tantas curvas, tantos altos e baixos, tantos descaminhos... desce, sobe, vira a esquina, engata a ré, acelera, estaciona, gira em looping - uma, duas, três, incontáveis vezes. me confunde a vida, embaralha a vista, revira o estômago, gira tudo de cabeça pra baixo - uma, duas, três, incontáveis vezes. desassossega o peito, arrepia a espinha, dá nó na garganta, faz ciranda com os sentidos, confunde prioridades e bagunça as perspectivas - uma, duas, três, incontáveis vezes. querer me dá vertigem. 

29 de setembro de 2015

sorry, bishop, but in fact the art of losing is fucking hard to master. 

23 de agosto de 2015

A experiência, a possibilidade de que algo nos passe ou nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. 

(...)

O sujeito da experiência é um sujeito ex-posto. Do ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição (nossa maneira de pormos), nem a o-posição (nossa maneira de opormos), nem a im-posição (nossa maneira de impormos), nem a pro-posição (nossa maneira de propormos), mas a ex-posição, nossa maneira de ex-por-nos, com tudo o que isso tem de vulnerabilidade e de risco. Por isso é incapaz de experiência aquele que se põe, ou se opõe, ou se impõe, ou se propõe, mas não se ex-põe. É incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada lhe fere.


Jorge Larrosa | Linguagem e educação depois de Babel 

17 de agosto de 2015

Pois um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois. 

Walter Benjamin | A imagem de Proust | Magia e Técnica, Arte e Política  

18 de julho de 2015

ocupando os dias com aquilo que acredito serem os próximos passos. sempre à beira dos desejos, povoada de incertezas, a fazer dos tropeços meu compasso. tentando acertar o ritmo, cadenciar o tilintar do relógio de pulso com o pulsar ansioso do peito. nada parece funcionar direito. cansada de me reinventar, de me reconstruir, de questionar o que é que há lá no fundo de mim. exaurida dessa busca | dentro, entre, sobre,  através, em meio, beira, fundo, fora, sob | por algo que me defina, acalme e me resgate dessa procura sem fim. assustada que o tempo passe tão depressa e as minhas conquistas demorem tanto a chegar. agoniada que depois de entender um bocado, tão pouca coisa pareça haver, enfim, mudado. entre tanto enquanto, lentidão que dói. e cá persiste sempre a mesma dúvida: será que na vida a gente se encontra... ou se constrói?   


6 de julho de 2015

Quando se sonha a fundo, nunca se para de começar. 

Gaston Bachelard

21 de abril de 2015

é tão delicado conseguir dosar verdade e cuidado...