28 de março de 2015

e mais uma vez parece bem mais simples que não dê em nada, mesmo. que nossas poucas parcas expectativas sequer cheguem a tomar forma; e que não alimentem coisa alguma aqui no peito. dá quase gosto ver que o novo, ao fim do dia, não desponta como possibilidade. assistir o outro a tropeçar no meio do caminho e me sentir também cambaleando em direção a ele. perceber que pela torta lógica desses passos tronchos, jamais chegaremos a lugar algum. como se o acordo, desde o início, fosse mesmo não passarmos de indício. é quase alívio perceber que jamais seremos capazes de tocar a humanidade do outro. de trocar com a humanidade do outro. e em meio a essa falta de tato que isola e protege, vamos aprendendo a implodir nossas pontes. como se a distância fosse sempre necessária; e irreversível. como se o contato entre duas almas fosse sempre um perigo iminente; e amar, uma sentença de morte.   

26 de março de 2015

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Mia Couto

12 de março de 2015

foge, "polida mas energicamente", desses dias doídos em que os seus fantasmas se põem a dialogar com Pessoa. é risco, menina. escuta o que eu digo. e corre. larga mão desse poema triste e vai se lambuzar com os tais chocolates. eles devem, mesmo, ser cheios de metafísica e doçura.