23 de março de 2014

sabe aquela história de que o tempo cura as feridas? sei não. acho que acontece é da gente ir pouco a pouco confundindo os porquês, destecendo as memórias, trocando as emoções de prateleira, transformando coisas grandes em pedaços desconexos de sensações, tirando as dores de contexto, rearranjando os nós, ressignificando papéis, até que um dia tá tudo tão misturado e as marcas tornam-se tão parte do que a gente se tornou, que as causas primeiras esgotam-se em importância. 
de início dispensei razões. precisava esquecer, antes de. sem demora. desafiei o peito a escancarar as dores de uma só vez pra ver se sarava mais rápido. necas. levou tempo pacas. na confusão desse enquanto, peito entulhado de mágoas, topei com um novo alguém me pedindo espaço. não tinha. ele disse que improvisava abrigo, achei por bem arriscar. levantou acampamento onde pôde, do lado de fora, num canto desconfortável entre meus planos de vida. ainda assim semeou doçuras. foi o tanto que coube, importante pra muito. insuficiente pra qualquer algo mais. 


18 de março de 2014

que fazer quando a gente não consegue se reconhecer? quando os grandes amores são esquecidos, as maiores feridas já não machucam e os sonhos de sempre perdem o sentido? e quando os prazeres chegam em cores novas e a gente nem sabe que nome dar às dores que sente? quando o abraço de quem mais nos conhecia deixa de ser confortável e o silêncio incomoda? quando a cumplicidade desaparece e dá lugar a uma polidez educada, que constrange e machuca? e quando a gente não reconhece o que sente por ser mesmo tudo novo, confuso e embaçado? e quando o quarto está vazio, branco, oco, cheio de prateleiras vazias à espera do punhado que sobrou de sensações encaixotadas? fazer o quê?

12 de março de 2014

hoje eu descobri que os dois avôs que não conheci tinham coração demais prum só peito. morreram de excesso. há quem busque razão na ciência; prefiro pensar que não couberam em si.