28 de agosto de 2012

eu ainda era muito pequena quando, em minha casa, a palavra Medo começou a ser escrita com letra maiúscula. confesso que até hoje, em mim, uma criança meio impressionada se desdobra na difícil tarefa de enxergar meus próprios receios a partir de uma nova perspectiva.

23 de agosto de 2012


 
chorar é existir
 
algumas gotas

para além

 de si
 
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eu já nasci com esse defeito, doutor. isso é coisa que a gente traz de fábrica mesmo, e começa a sentir nem bem começou a viver, ali naquele instantezinho inicial em que abrimos berreiro, divididos entre a dor e o alívio da primeira respiração. e nem duvido ter sido já em dia de estréia que eu percebi o quanto todo resto também não seria lá muito fácil.

pois então, doutor, o caso é esse: eu sofro de sensibilidades. assim, no plural mesmo. e não são poucas as vezes em que delicadezas me machucam a ponto de paralisar. sim, é isso, o senhor ouviu bem: a beleza me dói. como não bastasse toda tristeza que a gente precisa aprender a domar, também aquilo que é muito bonito me comove e machuca de modos que razões nunca alcançam. e por falar em razões, doutor, acredita que nem elas me escapam? dia desses, mesmo, pulei da poesia para a teoria. volta e meia eu insisto nisso de tentar escapulir pela porta das grandes ideias, caçando um modo de domar praticidades. dessa vez foi com o tal do foucault. mas aconteceu tudo de novo: um mundo de sutilezas insuportavelmente bonitas se descortinou à minha frente e doeu tanto, que só o senhor vendo...

tem certeza que isso não tem remédio, doutor?

22 de agosto de 2012


estudar todas essas coisas tem sido inesperadamente complicado, por um motivo tolo: é que me dá saudade. a cada vez que um novo pensamento salta dos livros a me dar palpitações, instintivamente corro os olhos ao redor, ofegante, em busca do menino que costumava estar por perto e amava compartilhar idéias. mas ele não está mais ali nem em lugar nenhum ao meu alcance e é preciso enfrentar essa ausência; mais uma vez. e nem se trata de saudade do amor perdido, sabe, mas sim daquela cumplicidade em relação a alguns temas bem específicos, que ainda não consegui encontrar numa outra pessoa.

tenho aprendido uma porção de coisas com muita urgência de troca, e isso é algo que até hoje eu só soube fazer com aquele (único) moço (único). então, a cada vez que me acontece de aprender algo muito bonito, eu sinto chacoalhar em meu peito um vazio que já nem pensava existir. é assim que, vez ou outra, me flagro um bocadinho mais só do que a constante presença de amigos normalmente me deixa supor.
 

20 de agosto de 2012

vez ou outra faz um bem danado escapulir de si - e de todo o resto - para relembrar que é possível existir num outro ritmo, com outros despropósitos.

 
Cachoeira - Bahia, acervo pessoal

esses pedacinhos de bahia, que existem para além da cidade de todos os santos, normalmente carregam uma doçura que me desconcerta a alma. a gente até se programa, se ajeita, faz planos e pega a estrada, cheios de disposição. mas é preciso chegar lá para compreender o nosso total despreparo em lidar com dias inteiramente tecidos por não-acontecimentos. uma senhora linda de vestido branco me ensinou que o nome disso é paz.

 

8 de agosto de 2012


e se nada der conta? se a política, a ciência, a religião, filosofia, psicologia, sociologia, antropologia, tecnologia, nem mesmo a poesia comportarem nenhum tipo de resposta, por não haver mesmo resposta possível? e se meu peito insistir nessa sensação de que tudo em que se funda a nossa existência permanece de pé pelo simples fato de que a nossa existência precisa se fundar em alguma coisa? e se não houver mesmo nenhuma ordem moral ou finalidade qualquer que dê sentido ao nosso estar no mundo?  e se a humanidade realmente não estiver caminhando em direção alguma por não haver pontos de partida, muito menos porto de chegada? e aí, pra que lado me movo? faz diferença?

6 de agosto de 2012

a princípio me machucava a ideia de ser mero curativo para uma velha ferida na vida de outra pessoa. aos poucos percebi não passarmos, todos nós, de algum tipo de curativo para as grandes feridas na vida de quem a gente ama. e entendi que talvez fosse esse, mesmo, o papel mais bonito que eu pudesse exercer na história daquele alguém.

5 de agosto de 2012

dessa vez fui eu que esbarrei no moço bonito do sorriso largo que volta e meia se esbarra em mim, dizendo uma porção de coisas lindas que não me dizem muito. e é curioso perceber que nossos encontros aconteçam sempre desse mesmo jeito, naquele mesmo lugar, reprodução de um mesmo script com intervalos nada breves de um ano ou dois: ele tentando se tornar algo além, enquanto tudo que desejo é que continue a ser o moço bonito do sorriso largo que volta e meia se esbarra em mim a intervalos nada breves de um ano ou dois, dizendo uma porção de coisas lindas que não me dizem muito.

1 de agosto de 2012

E agora me deixe só, inspector. Me custa chamar lembranças. Porque a memória me chega rasgada, em pedaços desencontrados. Eu quero a paz de pertencer a um só lugar, eu quero a tranquilidade de não dividir memórias. Ser todo de uma vida. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez. Custa-me ir cumprindo tantas pequenas mortes, essas que apenas nós notamos, na íntima obscuridade de nós. Me deixe, inspector, que eu acabei de morrer um bocadinho.

(A varanda do frangipani, Mia Couto)