11 de dezembro de 2015

não me interessam encontros dos quais possamos sair ilesos.
quero experiências que revirem minhas certezas do avesso.

4 de dezembro de 2015

sem eu sequer perceber, algo em mim rosnava pro teu bem querer.

2 de dezembro de 2015

um alguém querido certo dia me falou que "se apaixonar é se despertencer". foi quando entendi que o maior medo que sentia era de nunca mais me reaver.

24 de novembro de 2015

explicar con palabras de este mundo
que partió de mí un barco llevándome

alejandra pizarnik
dentro do frio mora um resto de saudade. dentro de mim também.

21 de outubro de 2015

há coisas que a gente guarda na intenção de nunca mais achar. uma carta, um cheiro, uma saudade, uma lembrança, um lamento, uma vontade. o disco antigo de luiz melodia, a velha colcha azul encardida e, claro, muitas (muitas) fotografias. tem tanta coisa escondida ali no fundo do fundo das minhas escolhas de vida, tantos retalhos de gente confinados nas curvas da minha memória seletiva. uma porção do meu ser que eu guardei assim: tão fundo, alheio, permissão só pra ir. vez ou outra o acaso, piadista, ergue pontes, cava túneis, cria atalhos, lança a corda, senta e ri. e fica ali, o quanto necessário, se divertindo a espiar se eu enforco ou resgato isso que há cá dentro de dentro de dentro de mim. mas há coisas que a gente realmente guarda na intenção de nunca mais achar.

6 de outubro de 2015

meu querer tem tantas curvas, tantos altos e baixos, tantos descaminhos... desce, sobe, vira a esquina, engata a ré, acelera, estaciona, gira em looping - uma, duas, três, incontáveis vezes. me confunde a vida, embaralha a vista, revira o estômago, gira tudo de cabeça pra baixo - uma, duas, três, incontáveis vezes. desassossega o peito, arrepia a espinha, dá nó na garganta, faz ciranda com os sentidos, confunde prioridades e bagunça as perspectivas - uma, duas, três, incontáveis vezes. querer me dá vertigem. 

29 de setembro de 2015

sorry, bishop, but in fact the art of losing is fucking hard to master. 

23 de agosto de 2015

A experiência, a possibilidade de que algo nos passe ou nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar os outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. 

(...)

O sujeito da experiência é um sujeito ex-posto. Do ponto de vista da experiência, o importante não é nem a posição (nossa maneira de pormos), nem a o-posição (nossa maneira de opormos), nem a im-posição (nossa maneira de impormos), nem a pro-posição (nossa maneira de propormos), mas a ex-posição, nossa maneira de ex-por-nos, com tudo o que isso tem de vulnerabilidade e de risco. Por isso é incapaz de experiência aquele que se põe, ou se opõe, ou se impõe, ou se propõe, mas não se ex-põe. É incapaz de experiência aquele a quem nada lhe passa, a quem nada lhe acontece, a quem nada lhe sucede, a quem nada o toca, nada lhe chega, nada o afeta, a quem nada o ameaça, a quem nada lhe fere.


Jorge Larrosa | Linguagem e educação depois de Babel 

17 de agosto de 2015

Pois um acontecimento vivido é finito, ou pelo menos encerrado na esfera do vivido, ao passo que o acontecimento lembrado é sem limites, porque é apenas uma chave para tudo o que veio antes e depois. 

Walter Benjamin | A imagem de Proust | Magia e Técnica, Arte e Política  

18 de julho de 2015

ocupando os dias com aquilo que acredito serem os próximos passos. sempre à beira dos desejos, povoada de incertezas, a fazer dos tropeços meu compasso. tentando acertar o ritmo, cadenciar o tilintar do relógio de pulso com o pulsar ansioso do peito. nada parece funcionar direito. cansada de me reinventar, de me reconstruir, de questionar o que é que há lá no fundo de mim. exaurida dessa busca | dentro, entre, sobre,  através, em meio, beira, fundo, fora, sob | por algo que me defina, acalme e me resgate dessa procura sem fim. assustada que o tempo passe tão depressa e as minhas conquistas demorem tanto a chegar. agoniada que depois de entender um bocado, tão pouca coisa pareça haver, enfim, mudado. entre tanto enquanto, lentidão que dói. e cá persiste sempre a mesma dúvida: será que na vida a gente se encontra... ou se constrói?   


6 de julho de 2015

Quando se sonha a fundo, nunca se para de começar. 

Gaston Bachelard

21 de abril de 2015

é tão delicado conseguir dosar verdade e cuidado...

mas querer não basta: é preciso, no mínimo, querer junto. de modos compatíveis. e em proporções mutuamente aceitas. dizendo assim até parece fórmula, mas nem. antes fosse. em meio a prescrições e suposições continuamos, perdidos e exaustos, ensaiando os passos de um balé de afetos desencontrados. 

12 de abril de 2015

e então eu falei do cansaço. do quanto, por mais que me mantenha em movimento, eu continuo me sentindo afundar aos pouquinhos. falei do chão que insiste em ceder, do ar cada vez mais escasso e dessa urgência louca que eu às vezes sinto de me resgatar dentro de mim. contei também do meu receio de no fim das contas não saber dar conta. de como a vida me intimida, me fascina e amedronta. da dificuldade que eu tenho para achar respostas e desse medo enorme de que mais à frente, após tanto caminhar, não haja mais pra onde voltar.

ele não me disse nada. 

10 de abril de 2015

demorei tanto a entender que o caminho passa, necessariamente, por assumir meus desejos... sem esse primeiro reconhecimento, afinal, qualquer passo é um tiro no escuro. e chegar (ou não) bem pouco importa. 

as pessoas perderam o tato? ou nunca tiveram? as coisas não precisam ser graves pra serem levadas a sério.


7 de abril de 2015

eu finjo, sim, que é muito leve e que bem pouco importa. mas na verdade, querido, assim como o moço da tabacaria, o que desejo é que escancarem-me a porta aos pés de uma parede sem porta. ando mesmo ansiando pôr abaixo um desses muros que insistem em me encarcerar aos limites de mim. só não sei ao certo qual deles me sustenta. 

6 de abril de 2015

se pudesse esboçar um prefácio à hipotética estória de nós, diria apenas: que seja.

28 de março de 2015

e mais uma vez parece bem mais simples que não dê em nada, mesmo. que nossas poucas parcas expectativas sequer cheguem a tomar forma; e que não alimentem coisa alguma aqui no peito. dá quase gosto ver que o novo, ao fim do dia, não desponta como possibilidade. assistir o outro a tropeçar no meio do caminho e me sentir também cambaleando em direção a ele. perceber que pela torta lógica desses passos tronchos, jamais chegaremos a lugar algum. como se o acordo, desde o início, fosse mesmo não passarmos de indício. é quase alívio perceber que jamais seremos capazes de tocar a humanidade do outro. de trocar com a humanidade do outro. e em meio a essa falta de tato que isola e protege, vamos aprendendo a implodir nossas pontes. como se a distância fosse sempre necessária; e irreversível. como se o contato entre duas almas fosse sempre um perigo iminente; e amar, uma sentença de morte.   

26 de março de 2015

Começo a chorar
do que não finjo
porque me enamorei
de caminhos
por onde não fui
e regressei
sem ter nunca partido
para o norte aceso
no arremesso da esperança

Nessas noites
em que de sombra
me disfarcei
e incitei os objectos
na procura de outra cor
encorajei-me
a um luar sem pausa
e vencendo o tempo que se fez tarde
disse: o meu corpo começa aqui
e apontei para nada
porque me havia convertido ao sonho
de ser igual
aos que não são nunca iguais

Faltou-me viver onde estava
mas ensinei-me
a não estar completamente onde estive
e a cidade dormindo em mim
não me viu entrar
na cidade que em mim despertava

Houve lágrimas que não matei
porque me fiz
de gestos que não prometi
e na noite abrindo-se
como toalha generosa
servi-me do meu desassossego
e assim me acrescentei
aos que sendo toda a gente
não foram nunca como toda a gente

Mia Couto

12 de março de 2015

foge, "polida mas energicamente", desses dias doídos em que os seus fantasmas se põem a dialogar com Pessoa. é risco, menina. escuta o que eu digo. e corre. larga mão desse poema triste e vai se lambuzar com os tais chocolates. eles devem, mesmo, ser cheios de metafísica e doçura.

21 de janeiro de 2015

20 de janeiro de 2015

há muito não sou capaz de falar de amor
e há muito.
palavra entulhada na sua garganta
mas parece que quem engasgou
fui eu