7 de janeiro de 2026

num intervalo de quatro anos eu virei mãe e enterrei meu pai. troquei de pele, endereço, profissão, estado civil. supus ter vislumbrado algum sentido um punhado de vezes pelo caminho e dei de cara com a enorme fragilidade das bordas de mim. me esfacelei em mil outras, estranhas entranhas. avancei no desconhecido sem entender se o que me move é coragem ou puro pavor. tive acesso a outros mundos, submundos, sobremundos. dormi pouco, li pouco, sonhei pouco, falei pouco. amei, ousei, escutei e aprendi como nunca. senti saudades dilacerantes. tentei dialogar com meus desconfortos, mas acatei seus silêncios. comprei uma árvore de natal. aprendi a desejar e ter pressa. saí da teoria. quebrei, derreti, retorci, represei. tudo à volta (e cá dentro) sussurra que é preciso escoar, nem que seja pelas beiradas...  mas ando bem cansada.   


13 de maio de 2021

quem afinal define
que o melhor que se sente
há de vir em palavras
grandiloquentes?

houve um tempo
em que calei, suspeita
por achar pouco
construir existência
sobre palavras tão gastas

mas de um jeito doído aprendi, meus amigos
com aquele bem-querer mais antigo 
que amar com formalidades é
viver a dois pela metade.

pois então me permita encarar
a banalidade de ser dois por inteiro
passar café, fazer mercado,
lavar roupas, dormir cedo

hoje sei que amor se exibe entre frestas
no acolhimento das nossas contradições
em sonecas de domingo, rimas pobres, metáforas bregas
olhar, silêncio, ombro e mãos dadas
na possibilidade de ser, descansar, abrigar, baixar guarda.  

é que em vitrine chique de confeiteiro, amor é um velho brigadeiro. 
se der, por favor: de colher. 


Ser é trabalho criativo. A gente tece quem é nas histórias que se conta de si. Importa pouco o roteiro preciso, a ordem dos fatos, o que pensam os outros dos capítulos que vivemos juntos. É no rearranjo contínuo que a gente faz da memória, entrelaçando cheiros, fatos e afetos, que criamos pra nós roteiros daquilo que acreditamos viver. E é assim, na reescrita pouco atenta de tudo aquilo que nos atravessa, que a gente vai se moldando. Cada versão de si carrega um pouco de ficção. Ser é trabalho inacabado.

Até que um dia deixa de ser. 

arrancar de mim os sustos de que sou feita

em letras palavras e curtos ocasionais versos

versões espantos segredos dos meus silêncios 

coisas que nem me digo vontades que sequer penso 

aprender a jorrar a sangria que trago dentro do peito

e por falta de força ou jeito jamais escoou direito

11 de fevereiro de 2020

a minha infância dividiu espaço com a adolescência da minha irmã. e aquilo que devia ser martírio pra ela, pra mim era um universo de mistério, fantasia (e roupas incríveis).

quando ela adolesceu, entre poemas, receios e sensibilidades, eu tinha entre 5 e 6 anos. aprendi a ler (as letras e o mundo) na tentativa de entender os medos e amores que ela deixava escapar entre cartas, diários, suspiros e insônias. na angústia infantil de entender as coisas difíceis que pessoas grandes não dividiam comigo.

minha mãe conta que a primeira palavra que li em voz alta foi "g-e-o-g-r-a-f-i-a". faz sentido. deve ter sido. mas na minha memória afetiva, a história dos primeiros lidos é um pouco diferente. minha infância cedeu espaço, entre brinquedos e pelúcias, para que os livros e escritos da minha irmã ocupassem as principais prateleiras de mim. vieram quintana, clarice, arnaldo, amado, damário, manoel - o bandeira e o "de barros", cecília e adélia prado. faxinando a memória, o que encontro de mais antigo são (sempre) poemas - um deles em especial, de cecília, chamado "o 4o motivo da rosa":

"Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim."


era difícil e eu sabia de cor, mas não entendia.
hoje tenho palpites.

26 de novembro de 2019



(o riso do meu pai faz carinho em minha existência)

tem gente que é casa: eu sou. abrigo à solidão de amigos, varanda com sol pra arejar dor de amor. sou casa de praia se o clima esquenta e se a coisa entorta, bem rápido eu viro toca pra desabafo e rancor. 

ergui quarto do pânico no fundo da casa onde escondo três medos, cinco ou seipudores e os desejos mais íntimosvisitas se aproximam de vez em quando, mas é bem raro deixar gente entrar

7 de agosto de 2019

tem circunstâncias que parecem querer ditar como devemos nos sentir. que desejos, movimentos, medos e angústias se encaixam em certos contextos da vida da gente. parei de escrever por um tempo, como a querer apagar as vozes que me surgiam insistindo em dizer do que convenções taxavam por descabido. como a emudecer quem sou, travestida das fantasias que a vida parecia exigir. medo de deixar que as palavras costurassem o sentido de coisas que ainda não ousava sentir em voz alta. esperançosa de que não dizer me livrasse da aflição das contradições que me compõem. sorte do dia: isso calhou de dar bem errado.
felicidades são pausas 
que a gente dá para observar
sem angústia
à beleza das curvas
desse imenso labirinto 
que nos rodeia.

16 de maio de 2019


não caber em si nem sempre é sobra. pode ser falta, descompasso, desencaixe, desinteresse. pode ser essa pessoa (ou mais de uma) que a gente performa exigindo licença para se reconstruir em outra história, em outro arco dramático, se possível do zero. mas reinventar-se nessa medida exige tanto desapego, que apesar do desejo eu não sei se consigo.

Dúvidas coçam mais que o nascer dos dentes
Certezas vêm dos ossos, tem cálcio no cerne delas
A dor do que não se quer mais é afiada como poucas
A memória é um músculo que muitas vezes se quer flácido
A única coisa maior que a baleia é a vida da baleia

Maria Rezende
"Pequenos descobrimentos"

carrego o costume de escrever meus quereres a lápis, à mão mesmo. e tenho sempre no bolso, bem fácil, uma boa borracha para o caso de "nãos".

15 de maio de 2019

preparei uma festa pra mim. limpei a casa, lustrei os móveis, comprei lírios brancos e vinho tinto. fiz jantar, pus perfume, o som nas alturas, as taças de vidro. pintei as unhas, colori os lábios, avermelhei bochechas, abri janelas. cabelo ao vento, luz amarela e o melhor lugar separado à mesa. fiz uma baita festa pra mim mas adormeci, exausta, ainda à minha espera. 
leveza é querer sem culpa e caminhar sem pressa em direção a algo cuja busca faz tanto sentido que alcançar ou não bem pouco importa. quero crer.
dei de sonhar com meu primeiro amor. aquele, que arrisco dizer nem ter sido o maior (se para amar houver medida), sequer o mais doloroso. tampouco o mais presente, em tempo ou distância. no último sonho, faz um par de dias, passeávamos de barco com toda a minha família. já não éramos casal, nem queríamos. e eu precisava ir embora, planos prontos para outra viagem, em novas companhias. por algum motivo, porém, eu fazia as malas devagar demais. arrastava o quanto possível a despedida, como a desejar (não sem pudor) que ele dissesse: "fica". eu iria, ainda assim. no fundo, sabia. ele também. mas por algum motivo eu precisava muito ouvir do meu primeiro grande amor que, por mais que a vida nos lançasse a distintos mares, alguma ínfima parte da poesia do que fomos não naufragaria. 

fui embora sem que ele dissesse nada. 

sabe quando, mesmo com muita fome, a gente desiste de cozinhar pensando na pilha de pratos que vai ter que lavar? tenho me sentido assim em relação a amar.

8 de fevereiro de 2019

geralmente fins de tarde às sextas-feiras me dão ansiedade. é que eu não sei que forma dar a essas expectativas que nascem de dias com tanto por vir. mania de desconfiar de felicidade com hora marcada, sabe? parece que respiro pela metade. meu fôlego bom é de véspera, a bem da verdade  - de ano novo, sexta-feira, feriado, aniversário. eu prefiro o bem-estar antecipado. ultimamente, quando a sexta chega implacável em sua mania de promessas, eu compro flores. visto a casa inteira de verde e escancaro as janelas. pra respirar melhor, acho. nem sempre dá certo. às vezes sim.

7 de fevereiro de 2019

apatia em meu peito,
silêncio total de desejos
e o sangue escorrendo entre as pernas,
como a querer dizer:
segue, que aqui tem vida ainda.

5 de dezembro de 2018

sabe, meu bem, um dia eu tive algumas dores bem fundas e acho que só elas poderiam me trazer até aqui. nem sei ao certo como continuei respirando existindo insistindo após tanto vazio. é que eu já tive um grande amor, amor, que me deslocou do meu mundo. e reconstruir o existir depois que tudo ruiu é triste, mas é feliz também. e lá no fundo eu realmente acredito que apenas atravessando esse túnel povoado por meus maiores fantasmas, eu talvez seja capaz de construir um lugar melhor para abrigar nossa história agora. eu sei que dor é coisa muito estranha pra se sentir gratidão, mas tem vezes que eu sinto.

15 de setembro de 2018

cansaço sereno. vontade de arrumar a casa, o peito, as prateleiras, a vida. aspirar o pó dos costumes, desatar velhas amarras,  ficar só com o necessário. o que me levante, acorde, me agregue e faça forte. desembaralhar histórias, desatar nós frouxos, apostar só no que conduz à frente. desfazer, desprender, desatar, deixar ir. simplificar. largar pelo caminho o que quer que me mantenha em posições, sensações, impressões que atravancam. se o peito é mar e a brisa é breve, melhor remar com a vida leve.

17 de julho de 2018

quando assumi não estar pronta, o amor me disse: te espero. sem agonia, apelos, urgência, atropelos. me olhou nos olhos, sereno, e convidou prum passeio. ainda estamos em trânsito, o amor e eu: a passos lentos. ele pediu pra eu confiar no tempo. fiquei tentada a dizer sim.

3 de maio de 2018

ando estudando o amor. estudando, mesmo. com canetas coloridas, livros de literatura, filosofia, teologia, fuçando o que têm a dizer a biologia, sociologia, poesia. ando tentando entender. tentando achar o que existe de comunhão, relação, identidade quando a gente diz: amo. que é mesmo que se pretende comunicar em tão poucas palavras? e o que exatamente o outro lê em meio a isso? que espécie de denominador comum pode existir em coisas tão distintas que professamos a pais, mães, filhos, irmãos, amigos, amantes e deuses, de forma a caberem (?), todas, numa mesma palavrinha loucamente elástica? o que existe de essência nessa coisa em nome da qual se é capaz de gerar, matar, erguer templos, projetar vidas, atear fogo a cidades? como é que, abrigando tanto, a palavra amor não se esvazia? ando estudando bastante o amor. ando aprendendo um tanto de mim. dele, confesso: ainda não construí certeza. talvez nem deva. 

29 de abril de 2018

dia desses, numa conversa protocolar de consultório médico, mencionei os dois avôs que não conheci, cujos corações eram grandes demais pros próprios peitos. aqueles que morreram por não caberem em si, lembra? foi nessa mesma noite que ao acaso, em sonho, eu me esbarrei em ti. sentamos numa mesa de bar e tivemos uma conversa linda e longa e cúmplice e feliz. mas de repente eu me despedia às pressas e saía em urgência a procurar um posto médico onde alguém pudesse me imunizar contra doença de chagas. ao final eu conseguia a vacina e seguia meu caminho, aliviada em proteger o coração de se expandir demais e arrebentar no peito.

continuam surgindo coisas que, através de você, digo a mim. e mesmo hoje, espreitando às bordas de um novo amor, descubro velhas cicatrizes que ainda exigem algum cuidado por aqui.

24 de abril de 2018

felicidadezinhas
ou: quando a vida ensina que minhas pequenas alegrias têm rima. 


escrever, fotografar, aprender, trocar
minha casa, minhas plantas, meus gatos
e quando chegam novos livros comprados
dias de sol e a vista linda da minha janela
dias de chuva, a cama e o bem-querer aconchegado nela
descer a pé até o melhor acarajé da cidade
bater à porta da amiga vizinha quando dá saudade
me abastecer com meu pai e suas histórias antigas
me desfazer das pesadas bagagens vazias
cheiro de mato, cheiro de mar
cheiro da casa quando nice vai lá
almoço de sexta, café com baunilha
o sabor de pistache do sorvete da esquina
filmes no sofá, minha rede azul
um podcast lindo que fala de amor
mar sem onda, domingo sem dor
conversas, conselhos, dançar sem pudor
vestidos soltos, batom vermelho
comunicar em silêncio um amor verdadeiro
histórias malucas, escolhas sem danos
poesia que conforta, viagem sem planos
unhas pintadas, guarda-roupa arrumado
querer se doar sem nem ser cobrado



10 de abril de 2018

viver é um eterno recompor-se.
daí talvez essa dificuldade em empunhar as frágeis bandeiras de quem acreditamos ser.