25 de outubro de 2016

tem gente que puxa o nosso tapete com tanta doçura, que a gente cai sorrindo. só depois é que dói.

18 de outubro de 2016

(in)verso de amor
é esse velho constatar
que não deixar-se levar
por completo
também guarda
seus tristes
tortos
méritos

4 de outubro de 2016

hoje o tempo abriu ferida na parte mais mulher de mim.
voltei a sangrar.



29 de julho de 2016

tem muita vida batendo à minha porta. e eu, mãos na maçaneta, constrangida em não ter posto a casa em ordem pra a visita entrar.

14 de julho de 2016

conhecer(se) é um tecer(se) sem fim: mudo a fundo quem sou quando alcanço outro tanto de mim.

3 de julho de 2016

há um mundo inteiro dentro de nós que escapa às palavras. uma porção de sentidos que a gente não alcança por não saber (ou querer) nomear. é preciso, afinal, comunicar as coisas para torná-las inteligíveis; dar forma ao querer para entender que ele existe. quando quero evitar que as coisas ganhem muita importância, eu calo. no fundo, devo ter muitos desejos camuflados por esse silêncio; você talvez tenha sido um deles - não mais. 

26 de maio de 2016

um tantinho acuada, confesso. é que sempre que um querer desponta, meu medo exibe os dentes.

4 de maio de 2016

ando tecendo estampa nova no bordado da vida com aqueles fiozinhos soltos que eu nunca soube onde amarrar. tá fazendo sentido. tá ficando bonito. 

24 de abril de 2016

Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, o que faço é perto do não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. Como se falando pudéssemos fazer tudo. O que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar, pai. Preciso de aprender a calar-me. Quero muito fugir.

Valter Hugo Mãe | A Desumanização 

10 de março de 2016

acho que nunca teremos intimidade para contar do dia em que me escondi da sua mãe atrás de uma pilha de bananas e fugi do supermercado sem levar minhas compras, por não ter nada a dizer se acaso alegremente ela me perguntasse: "oi querida, o que conta de novo?".

teria sido engraçado, não fosse tão triste.  

21 de fevereiro de 2016

me agrada lidar com a certeza de alguns afetos enfim consumados.

5 de fevereiro de 2016

vasculhei os porões do meu peito, coração e memória em busca de algo a dizer; não restava nada. nadinha. nem o vazio habitual, nem dor, qualquer carinho ou rancor. nada. nenhuma palavra em suspenso, dúvida, curiosidade, lamento ou saudade. os velhos receios parecem enfim desgastados. pelo tempo, pela história, ao longo do caminho trilhado em direção à mulher que sou agora. antigos rasgos costurados, exageros podados, fantasmas expurgados. e fora a surpresa pelo encontro inesperado, nada naquela presença parecia tocar ou dialogar com a pessoa que me tornei. nada. não me interessam suas palavras, sua história, suas culpas ou vitórias. não me importa o que pensa ou sente, deseja ou pretende. nada disso faz mais diferença. finalmente. 


Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce se afina
até que em outra música se cala,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, torre aguda, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desmancha:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.

SilêncioOctavio Paz

11 de janeiro de 2016

eu tenho um pai cheio de poesia. segredo nosso: nas noites dele, a lua nasce quantas vezes a gente quiser.

10 de janeiro de 2016

eu parei de lutar contra o tempo. 
ando exercendo instantes. 

viviane mosé | pensamento chão