13 de maio de 2021

quem afinal define
que o melhor que se sente
há de vir em palavras
grandiloquentes?

houve um tempo
em que calei, suspeita
por achar pouco
construir existência
sobre palavras tão gastas

mas de um jeito doído aprendi, meus amigos
com aquele bem-querer mais antigo 
que amar com formalidades é
viver a dois pela metade.

pois então me permita encarar
a banalidade de ser dois por inteiro
passar café, fazer mercado,
lavar roupas, dormir cedo

hoje sei que amor se exibe entre frestas
no acolhimento das nossas contradições
em sonecas de domingo, rimas pobres, metáforas bregas
olhar, silêncio, ombro e mãos dadas
na possibilidade de ser, descansar, abrigar, baixar guarda.  

é que em vitrine chique de confeiteiro, amor é um velho brigadeiro. 
se der, por favor: de colher. 


Ser é trabalho criativo. A gente tece quem é nas histórias que se conta de si. Importa pouco o roteiro preciso, a ordem dos fatos, o que pensam os outros dos capítulos que vivemos juntos. É no rearranjo contínuo que a gente faz da memória, entrelaçando cheiros, fatos e afetos, que criamos pra nós roteiros daquilo que acreditamos viver. E é assim, na reescrita pouco atenta de tudo aquilo que nos atravessa, que a gente vai se moldando. Cada versão de si carrega um pouco de ficção. Ser é trabalho inacabado.

Até que um dia deixa de ser. 

arrancar de mim os sustos de que sou feita

em letras palavras e curtos ocasionais versos

versões espantos segredos dos meus silêncios 

coisas que nem me digo vontades que sequer penso 

aprender a jorrar a sangria que trago dentro do peito

e por falta de força ou jeito jamais escoou direito