5 de dezembro de 2018

sabe, meu bem, um dia eu tive algumas dores bem fundas e acho que só elas poderiam me trazer até aqui. nem sei ao certo como continuei respirando existindo insistindo após tanto vazio. é que eu já tive um grande amor, amor, que me deslocou do meu mundo. e reconstruir o existir depois que tudo ruiu é triste, mas é feliz também. e lá no fundo eu realmente acredito que apenas atravessando esse túnel povoado por meus maiores fantasmas, eu talvez seja capaz de construir um lugar melhor para abrigar nossa história agora. eu sei que dor é coisa muito estranha pra se sentir gratidão, mas tem vezes que eu sinto.

15 de setembro de 2018

cansaço sereno. vontade de arrumar a casa, o peito, as prateleiras, a vida. aspirar o pó dos costumes, desatar velhas amarras,  ficar só com o necessário. o que me levante, acorde, me agregue e faça forte. desembaralhar histórias, desatar nós frouxos, apostar só no que conduz à frente. desfazer, desprender, desatar, deixar ir. simplificar. largar pelo caminho o que quer que me mantenha em posições, sensações, impressões que atravancam. se o peito é mar e a brisa é breve, melhor remar com a vida leve.

17 de julho de 2018

quando assumi não estar pronta, o amor me disse: te espero. sem agonia, apelos, urgência, atropelos. me olhou nos olhos, sereno, e convidou prum passeio. ainda estamos em trânsito, o amor e eu: a passos lentos. ele pediu pra eu confiar no tempo. fiquei tentada a dizer sim.

3 de maio de 2018

ando estudando o amor. estudando, mesmo. com canetas coloridas, livros de literatura, filosofia, teologia, fuçando o que têm a dizer a biologia, sociologia, poesia. ando tentando entender. tentando achar o que existe de comunhão, relação, identidade quando a gente diz: amo. que é mesmo que se pretende comunicar em tão poucas palavras? e o que exatamente o outro lê em meio a isso? que espécie de denominador comum pode existir em coisas tão distintas que professamos a pais, mães, filhos, irmãos, amigos, amantes e deuses, de forma a caberem (?), todas, numa mesma palavrinha loucamente elástica? o que existe de essência nessa coisa em nome da qual se é capaz de gerar, matar, erguer templos, projetar vidas, atear fogo a cidades? como é que, abrigando tanto, a palavra amor não se esvazia? ando estudando bastante o amor. ando aprendendo um tanto de mim. dele, confesso: ainda não construí certeza. talvez nem deva. 

29 de abril de 2018

dia desses, numa conversa protocolar de consultório médico, mencionei os dois avôs que não conheci, cujos corações eram grandes demais pros próprios peitos. aqueles que morreram por não caberem em si, lembra? foi nessa mesma noite que ao acaso, em sonho, eu me esbarrei em ti. sentamos numa mesa de bar e tivemos uma conversa linda e longa e cúmplice e feliz. mas de repente eu me despedia às pressas e saía em urgência a procurar um posto médico onde alguém pudesse me imunizar contra doença de chagas. ao final eu conseguia a vacina e seguia meu caminho, aliviada em proteger o coração de se expandir demais e arrebentar no peito.

continuam surgindo coisas que, através de você, digo a mim. e mesmo hoje, espreitando às bordas de um novo amor, descubro velhas cicatrizes que ainda exigem algum cuidado por aqui.

24 de abril de 2018

felicidadezinhas
ou: quando a vida ensina que minhas pequenas alegrias têm rima. 


escrever, fotografar, aprender, trocar
minha casa, minhas plantas, meus gatos
e quando chegam novos livros comprados
dias de sol e a vista linda da minha janela
dias de chuva, a cama e o bem-querer aconchegado nela
descer a pé até o melhor acarajé da cidade
bater à porta da amiga vizinha quando dá saudade
me abastecer com meu pai e suas histórias antigas
me desfazer das pesadas bagagens vazias
cheiro de mato, cheiro de mar
cheiro da casa quando nice vai lá
almoço de sexta, café com baunilha
o sabor de pistache do sorvete da esquina
filmes no sofá, minha rede azul
um podcast lindo que fala de amor
mar sem onda, domingo sem dor
conversas, conselhos, dançar sem pudor
vestidos soltos, batom vermelho
comunicar em silêncio um amor verdadeiro
histórias malucas, escolhas sem danos
poesia que conforta, viagem sem planos
unhas pintadas, guarda-roupa arrumado
querer se doar sem nem ser cobrado



10 de abril de 2018

viver é um eterno recompor-se.
daí talvez essa dificuldade em empunhar as frágeis bandeiras de quem acreditamos ser.