ano de lutos e lutas
pelos que se foram
pelos que estão a caminho
e por tudo que, com tantas idas sem vindas,
também nós vamos deixando de ser.
19 de dezembro de 2017
27 de setembro de 2017
26 de agosto de 2017
tenho lido muito sobre a potência das narrativas. sobre essa capacidade que o narrar tem de (re)organizar sentimentos, afetos, percepções e posições que as coisas, pessoas e fatos ocupam em nossa vida. tem situações em que narrar cura. ameniza. ajuda a cicatrizar. falar, tecer, criar, recriar... tudo isso faz parte de um reelaborar-se. reelaborar o mundo, as vivências, as dores, memórias. cheguei por aqui alguns anos atrás em carne viva. tudo doía. reinventei minhas memórias incontáveis vezes, até não saber ao certo o que realmente aconteceu e o que foi fruto de imaginação. mas o que a gente inventa não deixa de ser, em certa medida, retratos da gente, certo? e faz tão (ou mais) parte do que somos quanto os "meros" fatos que nos afetam. e a cada vez que eu conto minha história, a cada releitura que faço de coisas que se passaram comigo, é como se eu me apoderasse de mim. como se os acontecimentos do passado subitamente adquirissem alguma plasticidade e a história da minha vida se tornasse um pouco elástica. como se o que foi não precisasse continuar sendo. como se quem fui não precisasse continuar sendo. e o retrato antigo estampasse um outro rosto. e depois outro. mais um. e outro. e cada um deles tivesse em si algum traço que carrego em mim, sem contudo me definir.
narrar tem um poder enorme: não só representa, mas cria. fornece versões. conecta fatos, expõe desejos, dá contorno a conceitos. narrar borda tramas novas na vida, desalinha e realinha tempos. resgata, rompe, questiona, responde. desvia, retoma, tece, desfia. narrar também silencia. ao reorganizar nossa percepção do ser, narrar nos torna.
* especialmente provocada por Paul Ricoeur, para quem "nossa própria existência não pode ser separada do modo pelo qual podemos nos dar conta de nós mesmos. É contando nossas próprias histórias que damos, a nós mesmos, uma identidade. Reconhecemo-nos, a nós mesmos, nas histórias que contamos sobre nós mesmos. E é pequena a diferença se essas histórias são verdadeiras ou falsas, tanto a ficção quanto a história verificável nos provêm de uma identidade" (Paul Ricoeur)
28 de maio de 2017
sobre coisas que entendi olhando pra você:
que há quereres que resistem,
outros que se vão.
que há amores que um dia acabam,
outros talvez não.
que há muitas possíveis saudades
de uma só relação.
que alguns medos nos atrapalham,
outros nos poupam.
que teríamos muito a trocar
numa outra situação
pois afinal eu tenho, sim,
motivos pra tanta admiração.
que ainda há algo de mim
compondo sua nova versão
e aquilo que um dia fomos
não assombra mais minha solidão
pois as dores que a gente enfrenta
um dia deixam de ser questão.
mas ainda que tudo mude,
surge agora a convicção
de que nunca seremos pro outro
alguém qualquer numa multidão.
e apesar de ainda ser um pouco confuso, fui feliz em te encontrar. incrível que um abraço sem jeito alivie tanto a pressão do afeto represado em meu peito. importante assumir que há em mim esse bem-querer que nenhuma dor foi capaz de abolir.
que há quereres que resistem,
outros que se vão.
que há amores que um dia acabam,
outros talvez não.
que há muitas possíveis saudades
de uma só relação.
que alguns medos nos atrapalham,
outros nos poupam.
que teríamos muito a trocar
numa outra situação
pois afinal eu tenho, sim,
motivos pra tanta admiração.
que ainda há algo de mim
compondo sua nova versão
e aquilo que um dia fomos
não assombra mais minha solidão
pois as dores que a gente enfrenta
um dia deixam de ser questão.
mas ainda que tudo mude,
surge agora a convicção
de que nunca seremos pro outro
alguém qualquer numa multidão.
e apesar de ainda ser um pouco confuso, fui feliz em te encontrar. incrível que um abraço sem jeito alivie tanto a pressão do afeto represado em meu peito. importante assumir que há em mim esse bem-querer que nenhuma dor foi capaz de abolir.
7 de fevereiro de 2017
é assim mesmo: em nós, as partes mais difíceis de emergir nascem de drásticas desconstruções. surgem de ruínas, cataclismos, erupções, quando a gente derruba mitos e dá uma volta completa ao redor das convicções, tendo a chance de espreitar a imensa fragilidade de nossas certezas. é quando as vivências embaralham nosso campo de visão e descortinam novos ângulos, inaugurando olhares. daí nascem outros de nós, sobrepostos a nós mesmos, em camadas que se articulam, dialogam, atritam, destroçam e recompõem nossa experiência de estar-no-mundo. essa sensação de impermanência é uma das minhas maiores constantes (e talvez a mais querida angústia).
11 de janeiro de 2017
25 de outubro de 2016
18 de outubro de 2016
29 de julho de 2016
14 de julho de 2016
3 de julho de 2016
há um mundo inteiro dentro de nós que escapa às palavras. uma porção de sentidos que a gente não alcança por não saber (ou querer) nomear. é preciso, afinal, comunicar as coisas para torná-las inteligíveis; dar forma ao querer para entender que ele existe. quando quero evitar que as coisas ganhem muita importância, eu calo. no fundo, devo ter muitos desejos camuflados por esse silêncio; você talvez tenha sido um deles - não mais.
26 de maio de 2016
4 de maio de 2016
24 de abril de 2016
Quando falo, não entrego nada. Deixo mesmamente despido quem tem frio e não encho a barriga dos que têm fome. Quando falo, o que faço é perto do não fazer nada e, no entanto, cria-nos a sensação de fazer tanto. Como se falando pudéssemos fazer tudo. O que digo é só bom porque pode ser dito, mas não se põe de parede para a casa ou de barco para a fuga. Não podemos ir embora. Falar é ficar. Se falo é porque ainda não fui. Ainda aqui estou. Preciso de me calar, pai. Preciso de aprender a calar-me. Quero muito fugir.
Valter Hugo Mãe | A Desumanização
10 de março de 2016
acho que nunca teremos intimidade para contar do dia em que me escondi da sua mãe atrás de uma pilha de bananas e fugi do supermercado sem levar minhas compras, por não ter nada a dizer se acaso alegremente ela me perguntasse: "oi querida, o que conta de novo?".
teria sido engraçado, não fosse tão triste.
teria sido engraçado, não fosse tão triste.
5 de fevereiro de 2016
vasculhei os porões do meu peito, coração e memória em busca de algo a dizer; não restava nada. nadinha. nem o vazio habitual, nem
dor, qualquer carinho ou rancor. nada. nenhuma palavra em suspenso, dúvida, curiosidade,
lamento ou saudade. os velhos receios parecem enfim desgastados. pelo tempo, pela história, ao longo do caminho trilhado em direção à mulher que sou agora. antigos rasgos costurados, exageros
podados, fantasmas expurgados. e fora a surpresa pelo encontro inesperado, nada naquela presença parecia tocar ou dialogar com a pessoa que me tornei. nada. não me
interessam suas palavras, sua história, suas culpas ou vitórias. não me importa
o que pensa ou sente, deseja ou pretende. nada disso faz mais diferença.
finalmente.
Assim como do fundo da música
Silêncio | Octavio Paz
Assim como do fundo da música
brota uma nota
que enquanto vibra cresce se afina
até que em outra música se cala,
brota do fundo do silêncio
outro silêncio, torre aguda, espada,
e sobe e cresce e nos suspende
e enquanto sobe caem
recordações, esperanças,
as pequenas mentiras e as grandes,
e queremos gritar e na garganta
o grito se desmancha:
desembocamos no silêncio
onde os silêncios emudecem.
11 de janeiro de 2016
10 de janeiro de 2016
11 de dezembro de 2015
Assinar:
Postagens (Atom)